Por PatyAZ

Aquela reação que nem você entendeu…
Já aconteceu com você? Está numa reunião de trabalho quando, de repente, um colega faz um comentário aparentemente inofensivo e seu sangue ferve. Enquanto isso, a pessoa ao seu lado apenas dá de ombros.
Ou então, todos estão animados com aquele happy hour de sexta-feira, mas você só consegue pensar em chegar em casa, colocar o pijama e curtir seu merecido sossego.
Não, você não é “estranho”. E nem eles são “sem noção”. É que cada um de nós carrega uma espécie de impressão digital emocional – nosso temperamento – que influencia profundamente como percebemos e reagimos ao mundo.
Minha mãe sempre me dizia: você “puxou o gênio do seu pai”! Pois é, ela estava mais certa do que imaginava. Tenho o mesmo blend (conbinação) de Temperamentos do meu pai. E entender esse “blend” pode ser a chave para uma vida com menos conflitos internos e mais paz.
Temperamentos: nossa bagagem emocional de fábrica
Imagine que você nasceu com uma mochila invisível. Dentro dela, não há roupas ou objetos, mas sim tendências emocionais, preferências e jeitos naturais de reagir. Essa mochila é seu temperamento – aquela parte da sua psquê que veio “de fábrica”, antes mesmo de qualquer influência do ambiente. Como um DNA Psicológico.
A ideia dos temperamentos é surpreendentemente antiga. Hipócrates, considerado o pai da medicina, já falava sobre isso há mais de 2.400 anos!
Claro que de lá pra cá a ciência evoluiu bastante, mas o conceito central permanece relevante na psicologia moderna. Pesquisadores como David Keirsey e psicólogos contemporâneos utilizam modelos baseados nos temperamentos para compreender diferenças comportamentais.
É como aquele amigo que sempre foi “elétrico” desde pequeno, enquanto seu irmão já nasceu mais “na dele”. Você provavelmente conhece famílias assim, não é?
Os quatro estilos emocionais (e por que nenhum é melhor que o outro)
Vamos conhecer os quatro temperamentos clássicos, mas com um aviso: ninguém é 100% de um único tipo. Somos uma mistura única, como um drink personalizado, onde geralmente um ou dois sabores se destacam mais. (E se você quiser conhecer sua combinação única de temperamentos, faça nosso teste Duo Temper
O Sanguíneo: aquela pessoa que ilumina a sala
Maria entra na festa e, em cinco minutos, já conversou com metade dos convidados. Esqueceu o nome de alguns, é verdade, mas compensou com seu entusiasmo contagiante. Para ela, aquela reunião chata de segunda-feira seria muito melhor se tivesse “dinâmicas de grupo” e “momentos de interação”.
Características: Comunicativo, espontâneo, otimista e adora novidades Frase típica: “Gente, vocês não vão acreditar no que aconteceu!” Desafio comum: Manter o foco em tarefas longas e detalhadas
É como aquele cachorrinho labrador que fica feliz com qualquer pessoa que chega – pura energia social!
O Colérico: o que faz acontecer
João não tem paciência para reuniões que “não chegam a lugar nenhum”. Para ele, conversas devem ter objetivos claros. Quando surge um problema, enquanto outros ainda estão processando a situação, ele já está propondo três soluções diferentes. No trânsito? Bem, digamos que semáforos amarelos são apenas “sugestões”.
Características: Determinado, prático, líder nato e orientado para resultados Frase típica: “Vamos resolver isso de uma vez!” Desafio comum: Pode atropelar sentimentos alheios na pressa de resolver problemas
É como um cavalo de corrida – potente, focado e sempre mirando a linha de chegada.
O Melancólico: o observador profundo
Ana repara em detalhes que ninguém mais vê. Enquanto amigos comentam sobre o filme que assistiram, ela analisa as camadas de significado, simbolismos e inconsistências no roteiro. Planeja suas viagens com meses de antecedência e fica genuinamente intrigada com a profundidade das coisas. Ah, e aquele presente que você ganhou dela? Provavelmente ela pensou nele por semanas.
Características: Reflexivo, perfeccionista, sensível e analítico Frase típica: “Mas você já parou para pensar no porquê disso?” Desafio comum: Pode se perder em análises e autocrítica excessiva
É como um gato observador – atento a cada movimento, processando tudo com profundidade.
O Fleumático: a âncora na tempestade
Carlos é aquele amigo que você liga quando o mundo parece desabar. Enquanto todos entram em pânico, ele mantém a calma e oferece soluções práticas. Não gosta de conflitos e tem uma paciência que parece infinita. Mudanças? Ele prefere pensar bem antes, obrigado.
Características: Paciente, diplomático, estável e confiável Frase típica: “Calma, vamos pensar com clareza sobre isso.” Desafio comum: Pode resistir a mudanças necessárias e adiar decisões importantes
É como uma tartaruga – avança com consistência, sem pressa, mas chega lá.
Por que reagimos tão diferente às mesmas situações?

Pense na última vez que sua equipe enfrentou uma crise no trabalho:
O sanguíneo provavelmente reuniu todos para “trocar ideias” e levantou o astral com seu otimismo.
O colérico já estava delegando tarefas e cobrando resultados imediatos.
O melancólico estava analisando como evitar que o problema se repita no futuro.
O fleumático acalmava os ânimos e buscava soluções que atendessem a todos.
Nenhuma abordagem está errada – são apenas diferentes janelas para ver a mesma paisagem.
E aquela discussão com seu parceiro(a) sobre onde passar as férias? Agora faz mais sentido por que vocês bateram cabeça, não é? Talvez você, com seu lado sanguíneo, queria novidades e aventuras, enquanto ele(a), mais fleumático(a), preferia o conforto e a segurança do conhecido.
Você já parou para pensar como seria o mundo se todos reagissem exatamente da mesma forma? Seria mais fácil, talvez, mas incrivelmente limitado.
Descobrindo seu próprio mapa emocional

Antes de rotular os outros (ou a si mesmo), lembre-se: temperamentos são tendências, não sentenças. Eles explicam, mas não justificam comportamentos. E o mais importante: todos podemos desenvolver habilidades que não vêm naturalmente para nós.
Quer descobrir suas tendências dominantes? Observe-se nestas situações:
Diante de uma mudança inesperada de planos:
- Você fica animado com as novas possibilidades? (Sanguíneo)
- Rapidamente reorganiza tudo e segue em frente? (Colérico)
- Sente-se desconfortável e precise processar a mudança? (Melancólico)
- Adapta-se calmamente, mas preferiria estabilidade? (Fleumático)
Quando precisa tomar uma decisão importante:
- Consulta várias pessoas e decide pelo que parece mais divertido? (Sanguíneo)
- Avalia rapidamente prós e contras e parte para a ação? (Colérico)
- Pesquisa exaustivamente todas as opções antes de escolher? (Melancólico)
- Pondera com calma, evitando extremos? (Fleumático)
Em uma discussão acalorada:
- Tenta aliviar a tensão com humor? (Sanguíneo)
- Defende seu ponto com firmeza e espera resolução rápida? (Colérico)
- Analisa profundamente os argumentos e pode se magoar? (Melancólico)
- Busca o meio-termo e tenta acalmar os ânimos? (Fleumático)
Minha mentorada Rafaela, sempre foi chamada de “devagar” e “indecisa”. Quando descobriu seu temperamento predominantemente fleumático, percebeu que sua cautela natural não era um defeito – era uma qualidade valiosa que a tornava excelente mediadoar de conflitos e planejadora de longo prazo. Uma combinação ideal para uma gestora de RH. Hoje, ela usa conscientemente essa característica a seu favor.
E você? Contra qual parte da sua natureza tem lutado?
Ferramentas práticas para navegar seu temperamento
Conhecer seu temperamento é apenas o começo. O verdadeiro poder está em usar esse conhecimento para criar uma vida mais alinhada com quem você realmente é.
Para Sanguíneos:
- Crie sistemas externos de organização para compensar sua tendência à dispersão
- Reserve momentos para conexões sociais genuínas – você precisa disso como precisa de água
- Quando precisar focar, experimente a técnica Pomodoro (25 minutos de concentração, 5 de pausa)
Para Coléricos:
- Pratique ouvir sem interromper – conte até 3 mentalmente antes de responder
- Canalize sua energia para projetos com propósito claro
- Aprenda a reconhecer quando sua urgência é realmente necessária e quando pode esperar
Para Melancólicos:
- Estabeleça limites para análises – “vou pensar nisso por 30 minutos e depois decidir”
- Celebre pequenas vitórias em vez de focar apenas no que falta
- Encontre espaços seguros para expressar sua rica vida interior
Para Fleumáticos:
- Defina prazos pessoais para decisões importantes
- Pratique expressar suas necessidades – sua paz interior também importa
- Use sua habilidade natural de ver todos os lados para mediar conflitos
Lembre-se: o objetivo não é mudar quem você é, mas sim trabalhar com sua natureza, não contra ela.
Um novo olhar para velhas frustrações

Quantas vezes você já se perguntou: “Por que sempre reajo assim?” ou “Por que não consigo ser mais como fulano?”
Talvez a pergunta mais libertadora seja: “E se não houver nada de errado comigo?”
Entender os temperamentos nos oferece uma lente mais compassiva para olhar não apenas para nós mesmos, mas também para os outros. Aquele chefe que parece impaciente demais? Provavelmente um colérico tentando fazer as coisas acontecerem. A amiga que nunca decide onde jantar? Possivelmente uma fleumática considerando cuidadosamente todas as opções.
Como sempre digo às minhas mentoradas e alunas:
“Conhecer seu temperamento não é sobre se limitar,
mas sobre se libertar das expectativas irreais
que você colocou sobre si mesmo.”
Um convite para a jornada
Nosso temperamento é como o instrumento que recebemos na grande orquestra da vida. Alguns ganharam violinos, outros, tambores. Nenhum é melhor que o outro – são apenas diferentes, com seus próprios desafios e belezas.
A maestria não está em tentar transformar seu tambor em violino, mas em aprender a tocar seu instrumento da melhor forma possível, em harmonia com os demais.
Então, da próxima vez que você se pegar reagindo de forma intensa a algo que outros mal notaram, ou precisando de solitude enquanto todos buscam agitação, lembre-se: não há nada de errado com você. É apenas seu temperamento se manifestando – aquela parte única e valiosa que faz de você quem você é.
E talvez o maior presente que possamos nos dar seja a permissão para sermos exatamente quem somos, enquanto trabalhamos conscientemente para nos tornarmos a melhor versão possível desse ser.
Afinal, como dizia Carl Jung:
“Quem olha para fora sonha,
quem olha para dentro desperta.”

Uma resposta