Por PatyAZ

Ontem à noite, depois de quase duas horas rolando o feed do Instagram, Mariana, minha mentorada, me enviou uma mensagem. Nela dizia que estava com o coração acelerado, a respiração curta e aquela sensação que já a acompanha há algum tempo de não ser suficiente. 

Quando as telas viram espelhos distorcidos

Minha primeira pergunta para ela no whatsapp foi: 

Há quanto tempo você estava rolando feed?

A verdade incômoda é que viramos espectadoras da própria vida. Enquanto assistimos os highlights das vidas alheias, nossa vida vai escorrendo sem perceber. 

Até a ciência já fez essa conta.  Um estudos recente da Universidade de Stanford mostrou que passamos em média 144 minutos diários em redes sociais, tempo suficiente para ler um livro por semana ou fazer uma nova aula todos os dias.

O algoritmo é inteligente, né? Ele sabe exatamente o que te mostrar para manter você rolando o feed: corpos “perfeitos”, casas impecáveis, relacionamentos aparentemente sem conflitos, carreiras meteóricas. 

E nós, do outro lado da tela, comparando nossa realidade crua com versões editadas de outras vidas.

Nos pegamos invejando viagens para lugares que nem queremos conhecer. Ou sonhando com carros e roupas que nunca desejamos.

Quem é essa mulher diante de mim?

Essa minha mentorada tomou consciência do que acontecia na terça-feira, quando estava escolhendo uma roupa e se pegou pensando: “Essa ficaria boa para uma foto no feed?”; ao invés de se perguntar “Essa me faz sentir confortável? Essa tem a ver com quem eu sou?”

Ela parou  na frente do espelho e mal reconhecia a mulher que a encarava de volta. Não porque estava diferente fisicamente, mas porque havia perdido a conexão com aquela pessoa. Quem era ela além das roupas que usava, dos lugares que frequentava, das opiniões que repetia?

A ansiedade que sentia não era apenas sobre não ser suficiente para os outros, era sobre ter se afastado tanto de si mesma que já não sabia mais o que era suficiente para ela.

“Acho que estou vivendo a vida que acho que deveria ter, e não a que realmente quero”.

Três caminhos para voltar para casa (ou seja, para si mesma)

1. O ritual das três perguntas

Disse a Mariana para começar algo novo.  Todas às vezes que pegasse o celular, antes de entrar na rede, deveria se fazer três perguntas:

As perguntas são simples, mas poderosas:

  1. O que ME faria feliz hoje, independente do que os outros pensariam?
  1. Qual valor pessoal quero honrar nas minhas ações hoje?
  1. Se ninguém jamais soubesse o que fiz hoje, ainda valeria a pena fazer?

A psicóloga Dra. Susan David, especialista em inteligência emocional, explica que perguntas como essas nos reconectam com nossos valores internos, em vez de nos deixarmos guiar por validações externas. 

Minha mentorada me confessou que nos primeiros dias, foi difícil responder. 

No terceiro dia, me enviou mensagem dizendo que queria passar uma hora lendo. Só isso. Nada grandioso, nada instagramável. E foi a hora mais satisfatória que teve em meses.

2. O detox de comparação

Não é um detox digital completo, é um detox de comparação.

O processo é simples mas desafiador: por duas semanas, fazer uma limpeza em quem segue. Não apenas “deixar de seguir” em contas tóxicas, mas uma análise honesta de como se sente depois de ver cada perfil. Se a resposta for “menos”, “insuficiente” ou “ansiosa”, deixe de seguir imediatamente, sem olhar para trás.

Em seguida, estabeleça horários específicos para redes sociais – não mais que 30 minutos por dia, divididos em dois blocos. E o mais importante: nada de redes sociais na primeira hora após acordar ou na última hora antes de dormir.

Os especialistas em neurociência explicam que nosso cérebro é mais sugestionável nesses momentos.  É quando absorvemos mais profundamente as mensagens externas e deixamos que elas definam nosso humor para o dia ou nossos sonhos à noite.

3. A prática do prazer não-documentado

Esta talvez seja a mais difícil e  a que irá trazer mais rapidamente você de volta.

Escolha um dia na semana para passar o dia todo fazendo coisas que ama, mas nada de foto, nenhum story, nada.

Estamos tão dependentes de validação externa que, de alguma forma, configuramos nosso cérebro para entender que experiências não compartilhadas não valem a pena.

Mariana também fez esse “exercício”. Ela escolheu o domingo. Disse que foi muito difícil mas decidiu deixar o celular em casa.

Naquele domingo, foi a uma cafeteria nova, caminhou por um bairro que queria explorar há tempos, comprou flores na feira e passou horas conversando em um banco de praça, com uma amiga que encontrou. Sem fotos, sem poses de bem sucedida.

Foi estranho no início, disse ela. Várias vezes procurou o celular na bolsa para registrar algo bonito. Mas ao final do dia, percebeu que tinha memórias vividas de verdade, de tudo. Estava presente, não dividida entre viver e documentar.

Encontrando o caminho de volta

Essa frase da minha mentorada mexeu comigo e quero compartilhar contigo: 

Acho que a ansiedade diminui quando voltamos para casa”.

“Para casa?” eu perguntei a ela.

“Sim, para dentro de nós mesmas. Para esse lugar onde sabemos quem somos, o que queremos, o que nos importa de verdade.”

Como disse a escritora Joan Didion: “Nós contamos histórias para viver”.

O problema é quando começamos a viver as histórias que os outros contam, esquecendo de escrever a nossa própria.

Então, se você também tem se sentido ansiosa e perdida, talvez seja hora de fazer o caminho de volta para você mesma. Não precisa ser perfeito ou radical. Pequenos passos diários já fazem a diferença.

E lembre-se: sua vida real, imperfeita e autêntica, vale muito mais que qualquer versão editada que você poderia apresentar ao mundo. A verdadeira conexão – com você mesma e com os outros – acontece quando baixamos os filtros e nos permitimos ser vistas como realmente somos.

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