Imagine uma pessoa que tem a energia de um vulcão e a sociabilidade de um apresentador de TV, mas que de repente se vê parada, como um carro potente com o freio de mão puxado. É exatamente isso que acontece com nossas clientes que têm o temperamento colérico-sanguíneo quando se encontram estagnadas.

Como terapeutas, sabemos que cada pessoa é única, mas entender os padrões temperamentais pode ser como ter um mapa em território desconhecido. E quando falamos de alguém colérico-sanguíneo, estamos falando de uma combinação fascinante e, às vezes, explosiva.

Quem é essa pessoa que está na nossa frente?

Pense na sua amiga que sempre tem mil projetos na cabeça, que entra numa sala e todos olham para ela, que fala com paixão sobre seus sonhos e que, ao mesmo tempo, fica impaciente quando as coisas não andam no ritmo que ela gostaria. Essa é a essência colérico-sanguínea.

O lado colérico traz aquela força de “vou fazer acontecer”, a liderança natural, a determinação que move montanhas. Já o lado sanguíneo adiciona o tempero social, a necessidade de estar com pessoas, de ser vista, de receber aquele feedback positivo que alimenta a alma.

É como ter um motor V8 (colérico) com um sistema de som potente (sanguíneo) – quando tudo funciona bem, é espetacular. Mas quando algo trava, o barulho é ensurdecedor e a frustração, imensa.

Por que alguém tão dinâmica fica parada?

O paradoxo da escolha infinita

Você já ficou 20 minutos parado na frente da Netflix sem conseguir escolher o que assistir? Agora imagine isso multiplicado por dez. A pessoa colérico-sanguínea vive cercada de possibilidades – novos projetos, novos relacionamentos, novas aventuras. E paradoxalmente, ter tantas opções pode paralisar.

Como disse Barry Schwartz em “O Paradoxo da Escolha”, às vezes ter muitas opções nos deixa mais ansiosos do que felizes. Para alguém que quer fazer tudo e fazer bem feito, essa abundância de caminhos pode ser um pesadelo.

O medo disfarçado de confiança

Aqui está um segredo que muitas vezes passa despercebido: por trás daquela confiança toda, existe um coração que tem medo de decepcionar. O colérico quer vencer, o sanguíneo quer ser amado. E se eu tentar e não conseguir? E se as pessoas descobrirem que não sou tão incrível quanto pareço?

É como um ator que domina o palco, mas que nos bastidores treme de nervosismo. A estagnação pode ser uma forma inconsciente de se proteger do risco de falhar publicamente.

A síndrome do “tudo ou nada”

Para quem tem esse temperamento, meio termo é quase uma palavra feia. É 8 ou 80, é sucesso estrondoso ou fracasso total. Essa mentalidade pode criar uma pressão interna tão grande que a pessoa prefere não começar a correr o risco de não ser perfeita.

O que realmente funciona na terapia?

1. Validar a frustração (sem alimentá-la)

Primeiro, precisamos reconhecer que a frustração dela é real e compreensível. “Eu entendo como deve ser difícil para alguém com sua energia se sentir parada assim.” Mas cuidado para não ficar apenas validando – isso pode virar combustível para a ruminação.

2. A técnica do “próximo passo menor”

Em vez de focar no grande objetivo (que pode parecer uma montanha intransponível), vamos quebrar tudo em pedacinhos. Como disse Lao Tzu: “Uma jornada de mil milhas começa com um único passo.”

Pergunta reflexiva: “Se você tivesse que escolher apenas uma ação, por menor que fosse, que poderia fazer hoje para se sentir um pouquinho mais próxima do que quer, qual seria?”

3. O poder do “experimento de 15 minutos”

Para alguém que quer resultados rápidos, a ideia de se comprometer com algo por meses pode ser assustadora. Mas 15 minutos? Isso qualquer um consegue.

“Que tal experimentarmos por 15 minutos por dia durante uma semana? Se não funcionar, paramos. Se funcionar, continuamos.” É como provar um sabor novo de sorvete – baixo risco, potencial de alta recompensa.

4. Transformar a necessidade social em combustível

O lado sanguíneo precisa de pessoas. Em vez de ver isso como uma fraqueza ou distração, vamos usar como estratégia. Pode ser um grupo de apoio, um parceiro de accountability, ou até mesmo compartilhar o progresso nas redes sociais.

Estratégias práticas para o dia a dia

O método dos “3 focos”

Em vez de ter 15 projetos simultâneos, vamos escolher apenas 3 áreas de foco. Pode ser: carreira, relacionamentos e saúde. Ou criatividade, família e crescimento pessoal. O importante é ter clareza sobre onde colocar a energia.

A regra dos “2 minutos”

Se algo pode ser feito em 2 minutos, faça agora. Se não pode, anote para fazer depois. Isso evita que pequenas tarefas se acumulem e criem aquela sensação de sobrecarga que paralisa.

O “diário de energia”

Peça para ela anotar, durante uma semana, em que momentos se sente mais energizada e em quais se sente drenada. Padrões vão aparecer, e com eles, insights valiosos sobre como organizar melhor o dia.

Perguntas que transformam

Eu adoro trabalhar com perguntas durante as minhas sessões. Isso faz com que o cérebro das clientes entre no “módulo busca de soluções”.Elas podem ser verdadeiros catalisadores de mudança.

Por isso selecionei algumas para você terapeuta:

Quando a mudança começa a acontecer

O interessante é que, uma vez que a pessoa colérico-sanguínea sai da inércia, ela tende a acelerar rapidamente. É como empurrar um carro – o mais difícil é tirar do lugar, depois ele ganha velocidade sozinho.

Mas cuidado com o entusiasmo excessivo! É comum que, após um período de estagnação, ela queira compensar fazendo tudo de uma vez. Nosso papel é ajudá-la a manter um ritmo sustentável.

A jornada continua

Trabalhar com uma cliente colérico-sanguínea estagnada é como ser jardineiro de uma planta potente que temporariamente parou de crescer. Não é questão de força ou fertilizante – é questão de entender as condições certas para que ela volte a florescer.

E Lembre-se, nossa função não é “consertar” ninguém. É criar um espaço seguro onde a pessoa possa redescobrir sua própria capacidade de movimento e crescimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *